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09/02/2010
 
   
As lições de uma catástrofe mundial que não aconteceu

A pandemia da gripe A (H1N1) acabou não sendo o flagelo que as agências internacionais sanitárias previram.

Em 29 de janeiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que embora o vírus H1N1 ainda esteja se disseminando pela Europa, África e Ásia, o número de casos mundiais confirmados está em queda.

Foram registradas cerca de 14 mil mortes com a gripe. É uma perda trágica, mas é um número pequeno se considerado que as gripes sazonais comuns matam até 500 mil pessoas a cada ano, segundo a OMS.

Então, o que as autoridades sanitárias, cientistas e fabricantes de vacinas aprenderam da catástrofe mundial que não se concretizou? A resposta: os surtos virais do tipo são ainda menos previsíveis do que os cientistas imaginavam e os instrumentos de defesa em vigor atualmente teriam sido terrivelmente inadequados contra uma cepa mais virulenta.

"A manifestação decisiva do [vírus H1N1] foi moderada", diz Gregory Hartl, porta-voz da OMS, em Genebra. "Agora, foi estabelecido um processo para ajudar-nos a aprender."

A prioridade, dizem muitos especialistas, é renovar o sistema antiquado de produção de vacinas. A atual tecnologia, que envolve cultivar vacinas antigripais em ovos, é tão trabalhosa que os laboratórios farmacêuticos precisam começar a produção em fevereiro para assegurar que terão o suficiente a partir de setembro.

O H1N1 não apareceu até abril de 2009, o que levou o Centro de Controle de Doenças (CDC, em inglês), uma agência federal dos Estados Unidos, e as farmacêuticas a enfrentar dificuldades. Havia poucas vacinas quando o vírus estava em seu auge e demasiadas doses quando começou a desaparecer.

"Somos muito limitados por essa tecnologia com os ovos e estamos trabalhando na questão desde 2006", diz o dr. Stephen C. Redd, diretor da unidade de coordenação de gripes do CDC.

Empresas e universidades correm para modernizar a abordagem. A Baxter International, por exemplo, testou uma nova técnica de cultura de células e conseguiu produzir vacinas em apenas 12 semanas, depois de receber do CDC as especificações do vírus. A empresa vendeu algumas das vacinas na Europa e trabalha para que sua tecnologia seja aprovada nos EUA.

Da mesma forma, a associação universitária Texas A&M University System está inovando com uma instalação de pesquisa de produção que albergará várias tecnologias de fabricação de vacinas - todas capazes de serem iniciadas de imediato e adaptadas a qualquer elemento patogênico que surja.

A produção é apenas um dos gargalos. Quando a vacina contra a gripe A enfim passou a estar disponível no quarto trimestre do ano passado, alguns médicos não tinham ideia de quantas mais doses iriam receber nem quando, se é que receberiam mais.

Muitos Estados optaram por clínicas de vacinação em massa e falharam em priorizar grupos de alto risco, como grávidas e profissionais da saúde.

Jeanne S. Ringel, economista da Rand Corporation, que estuda pandemias, ficou surpresa com a falta de preparo na clínica de vacinação próxima a sua casa, em Los Angeles. Embora as clínicas supostamente tivessem de concentrar-se nos pacientes prioritários, "eles não recusavam ninguém", diz.

A McKesson, que trabalhou com o CDC para levar a vacina contra o H1N1 para as clínicas, teve apenas oito semanas para desenvolver uma rede de distribuição, segundo Jeff Reinke, vice-presidente da empresa.

Os pedidos dos Estados chegavam ao CDC e, então, para a McKesson - um processo que a empresa percebeu ser lento demais. A Mckesson encurtou os prazos de embalagem e remessas. Em e-mail, Reinke elogiou a decisão do CDC de continuar a aperfeiçoar o processo.

Falhas de comunicação também frustraram os esforços de vacinação. Muitas pessoas de alto risco ficaram receosas em usar a vacina contra o H1N1 porque pensavam que não havia sido testada. Na verdade, haviam sido produzidas da mesma forma que as vacinas contras gripes sazonais comuns e testadas de forma suficiente para que a Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) estivesse certa de sua segurança.

Para reagir às concepções equivocadas, a Associação Médica Americana (AMA) criou um site educacional e colocou seus integrantes no YouTube, Facebook e Twitter para tranquilizar o público.

Da próxima vez, o envolvimento com o consumidor precisa começar mais cedo e ser mais agressivo, talvez incluindo anúncios de televisão, segundo Mary Anne McCaffree, pediatra, em Oklahoma City, e integrante do conselho da AMA. "O resultado final é que nós viemos, nós vimos e não estou certa de que vencemos", diz McCaffree.

Alguns erros vieram da OMS. De início, presumiu que cada paciente precisaria de duas doses para proteger-se.

Uma dose mostrou ser adequada para adultos, o que significava que a maioria dos países europeus tinha vacinas suficientes disponíveis para imunizar toda a população. Devido à confusão e apatia pública, no entanto, esses países acabaram protegendo não mais do que 10% de suas populações.

Quanto às produtoras de vacinas, analistas do Morgan Stanley previram inicialmente que as três maiores - Novartis, Sanofi-Aventis e GlaxoSmithKline - venderiam um volume combinado de vacinas no valor de US$ 5,3 bilhões no semestre encerrado em 31 de março.

Em relatório de dezembro, disseram que as vendas poderiam ser até 15% mais baixas. A França diminuiu as encomendas da Novartis e Sanofi. Em 26 de janeiro, o chefe da área de vacinas da Novartis, Andrin Oswald, disse que as vendas da vacina contra o H1N1 neste ano seriam de menos da metade do US$ 1 bilhão verificado em 2009.

Mesmo com os índices de contaminação em queda, muitos especialistas em gripe estão preocupados com alguns aspectos da gripe A. Embora a mortalidade seja baixa, a maioria das vítimas são crianças.

E, embora a próxima vacina contra a gripe sazonal provavelmente inclua alguma proteção contra a gripe A, poderiam surgir novas cepas virulentas.

Enquanto os cientistas quebram a cabeça com questões epidemiológicas, a OMS vem sendo acusada de alimentar desnecessariamente o temor público. Um dos críticos é Wolfgang Wodarg, médico e ex-parlamentar alemão, atualmente no Conselho da Europa, uma organização em Estrasburgo que promove os direitos humanos.

Durante reunião do conselho em 26 de janeiro, Wodarg acusou a OMS de ter fabricado uma pandemia que provocou pouco mais do que receitas para a indústria farmacêutica. Foi um "perigoso nonsense", disse, por meio de um intérprete.

O dr. Keiji Fukuda, da OMS, que também discursou no encontro, defendeu a resposta da agência. As políticas e respostas contra a gripe recomendadas pela OMS "não foram influenciadas inapropriadamente pela indústria farmacêutica", declarou. Mas, acrescentou, "há muito a aprender sobre como o mundo pode melhorar a forma como lida com tais eventos".

Valor Econômico(09/02/2010)

 
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